• Letícia Seneme

Patologias neuropsiquiátricas e a microbiota

Como já se sabe, a microbiota e a nossa saúde mental possuem uma relação importante. A partir disso, a tendência médica é levar em consideração a condição da microbiota de pacientes que apresentam problemas neurológicos ou distúrbios psiquiátricos, como ansiedade e depressão.



A relação intestino-cérebro é estabelecida através da interação entre o cérebro -e suas funções cognitivas e emocionais- e o sistema intestinal -que abrange o sistema nervoso entérico e o microbioma-. Estudos apontam que a ausência de microrganismos ou o desarranjo deles na microbiota, podem gerar mudanças significativas nos níveis de alguns compostos neurais. São essas alterações que podem gerar ansiedade e problemas de cognição, socialização e desenvolvimento neuronal.


Na Espanha, para que haja uma padronização em pesquisas e estudos sobre a microbiota e a saúde mental, houve a criação de um Documento de Consenso, que aborda questões sobre a microbiota intestinal e o uso de medicamentos para trato gastrointestinal (probióticos e prebióticos) na área de neurologia e patologias psiquiátricas. Tal documento foi elaborado pelas Sociedade Espanhola de Microbiota, Probióticos e Prebióticos; Sociedade Espanhola de Psiquiatria Biológica e a Sociedade Espanhola de Neurologia.


Trinta e cinco especialistas (pesquisadores e médicos) pertencentes a mais de vinte centros de pesquisa e hospitais participaram da criação do Documento, e ele é composto por três partes: uma introdução que aborda aspectos básicos da microbiota e de probióticos (elaborada pela Sociedade Espanhola de Microbiota, Probióticos e Prebióticos); e duas outras mais específicas clinicamente, que relacionam o papel da microbiota na saúde mental, como em doenças neurológicas e distúrbios (elaboradas pela Sociedade Espanhola de Psiquiatria Biológica e pela Sociedade Espanhola de Neurologia).


O Documento pretende ampliar as pesquisas e também contribuir para o aperfeiçoamento dos profissionais com relação ao tema, em especial neurologistas e psiquiatras.


“A tomada de decisões na prática clínica para o uso de probióticos e/ou prebióticos deve ser baseada em uma combinação de evidências científicas e conhecimentos práticos, para os quais o uso de diretrizes de prática clínica é recomendado. Preparado em conjuntos por diferentes profissionais de saúde. Isso contribuirá para otimizar cuidados de saúde individualizados, abrangentes, de qualidade, eficazes e seguros.” (Trecho do Documento de Consenso)

Com o passar dos anos muitas doenças neurológicas e distúrbios mentais puderam ser associados a alguma alteração na relação microbiota-intestino-cérebro, isso devido ao conhecimento de uma comunicação bidirecional entre esses componentes, em que a microbiota se comunica com os sistemas nervoso, endócrino e imunológicos. A partir disso, o funcionamento cerebral acaba sendo influenciado.


Em razão disso, a microbiota intestinal pode auxiliar na manutenção de certas funções cerebrais e influenciar a saúde mental. Tais doenças se apoiam no estresse oxidativo e inflamatório que pode ocorrer através do desequilíbrio da microbiota, afetando, dessa forma, a atividade cerebral.


Neste caso, um dos fatores mais comuns que ocasionam o desequilíbrio da microbiota é a disbiose, uma condição que consiste no aumento do número de bactérias patogênicas, tornando-as maioria se comparado ao número de bactérias benéficas à saúde. Esse pode ser o motor de algumas doenças neurológicas, como: esclerose múltipla, doença de Parkinson, doenças de Alzheimer, autismo, TDAH, transtornos obsessivo-compulsivos, esquizofrenia, transtorno bipolar, ansiedade e depressão.


No entanto, os problemas da microbiota podem ser controlados a partir de dietas, uso correto de probióticos e prebióticos e até mesmo por transplante fecal. Em 2013, o termo “psicobiótico” foi proposto na Universidade de Cork (Irlanda) para designar um probiótico que produz e libera substâncias neuroativas para agirem na ligação microbiota-intestino-cérebro. O alvo dessa medicação seriam pacientes com doenças neurológicas ou distúrbios comportamentais, porém, seu uso ainda é bastante limitado e a maioria faz parte de estudos experimentais.


Portanto, a criação do Documento de Consenso tem como objetivos: obter soluções para muitas patologias neuropsiquiátricas, melhorar a qualidade de vida dos pacientes (sem esquecer o rigor e os valores científicos) e incentivar as pesquisas no campo.


- Fonte: Gabbia Insights (Edição 32, dezembro de 2021).

Acesse o Documento de Consenso clicando aqui.